Nem todas as cartas são de amor

Tuesday, July 14th, 2009 | Livros, Traduções

Todas nós lembramos da linda carta de amor do capitão Wentworth. Mas nem todas cartas são de amor, mesmo vindo de nossos amados(as). Ontem, lendo os feeds, encontro esta maravilha de carta no Chá com Hortelã e lembrei-me imediatamente da cartinha de Willoughby para Marianne.

“Bond Street, January.

My Dear Madam,

I have just had the honour of receiving your letter, for which I beg to return my sincere acknowledgments. I am much concerned to find there was anything in my behaviour last night that did not meet your approbation; and though I am quite at a loss to discover in what point I could be so unfortunate as to offend you, I entreat your forgiveness of what I can assure you to have been perfectly unintentional. I shall never reflect on my former acquaintance with your family in Devonshire without the most grateful pleasure, and flatter myself it will not be broken by any mistake or misapprehension of my actions. My esteem for your whole family is very sincere; but if I have been so unfortunate as to give rise to a belief of more than I felt, or meant to express, I shall reproach myself for not having been more guarded in my professions of that esteem. That I should ever have meant more you will allow to be impossible, when you understand that my affections have been long engaged elsewhere, and it will not be many weeks, I believe, before this engagement is fulfilled. It is with great regret that I obey your commands in returning the letters with which I have been honoured from you, and the lock of hair, which you so obligingly bestowed on me.

I am, dear Madam,
Your most obedient
humble servant,
John Willoughby”

Bond Street, janeiro.

Prezada Senhora,

Acabo de ter a honra de receber a sua carta, pela qual peço aceitar meus sinceros agradecimentos. Estou muito preocupado por saber que houve algo em meu comportamento da noite anterior que não mereceu a sua aprovação; e se bem não consiga atinar em que ponto a minha atitude a houvesse ofendido, venho pedir-lhe perdão para o que lhe posso assegurar não terá passado de um gesto inintencional. Não consigo lembrar-me do excelente convívio que ive com sua família em Devonshire ultimamente sem que o faça com o maior prazer, e muito aspiro não venha sofrer qualquer desgaste por algum equívoco ou mal-entendido decorrente de meus atos. Minha consideração por toda a sua família é deveras sincera; mas, se tive a infelicidade de dar ensejo a que acreditasse em algo além do que eu realmente sentia, ou quisesse expressar, devo reprovar-me por não ter sido mais moderado na manifestação dessa estima.  Quanto a supor que eu quisesse significar algo mais, há de convir que me era impossível, quando souber que o meu afeto desde há muito se achava comprometido, sendo que dentro de algumas semanas tal compromisso será definitivamente selado. É com grande pesar que obedeço à sua ordem de lhe devolver suas cartas, com as quais fui profundamente distinguido, e o anel de cabelos, com que tão gentilmente me havia obsequiado.

De V. S,
o mais obediente e humilde servidor,
John Willoughby”

Marianne, depois de tal missiva, afirma,

“No, no,” cried Marianne, “misery such as mine has no pride. I care not who knows that I am wretched. The triumph of seeing me so may be open to all the world. Elinor, Elinor, they who suffer little may be proud and independent as they like–may resist insult, or return mortification–but I cannot. I must feel–I must be wretched–and they are welcome to enjoy the consciousness of it that can.”

— Não, não — exclamou Marianne. — Um desgosto como o meu não tem orgulho. Não me importa que saibam do meu infortúnio. O triunfo de me verem vencida será patente aos olhos do mundo. Elino, Elinor, os que p-ouco sofrem podem ser orgulhosos e independentes como quiserem… podem resistir aos insultos e esquecer o desespero… mas eu não. Tenho de sentir… que ser infeliz… e eles estão livres para ver que assumo o meu papel.

E nós o que faríamos? Ainda inspirada por Liliana, a Poderosa Afrodite, fica aqui uma receita!

  • Razão e sentimento, capítulo 29, trad. Ivo Barroso.
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15 Comments to Nem todas as cartas são de amor

Liliana
July 14, 2009

Raquel, que lindo!
Mesmo a tristeza pode ser bonita.
Fico feliz de ter ajudado com algo.
Beijos,
Li

Raquel
July 14, 2009

Liliana,
verdade, e às vezes dá vontade de dizer: Bonjour, Tristesse!
Obrigada, querida e beijocas para você.

Mell
July 14, 2009

Céus, eu sou tão Marianne… ai ai

Marcia Rosenberger
July 14, 2009

Cara Raquel,

Você tem sido motivo de inspiração para mim, tanto pela oportunidade de partilhar informações sobre esta autora que admiro, quanto admirar suas criações no restaure.

Como diz Elizabeth, aprecio travar novos conhecimentos com pessoas interessantes… (ou algo assim…)

Boa sorte e meus agradecimentos,
Marcia Rosenberger

Raquel
July 15, 2009

Marcia,
muito obrigada e seja bem-vinda!

Raquel
July 15, 2009

Mell,
não se desespere, veja o que diz Liliana!

Gisele Cano
July 15, 2009

Eu tb já fui bem Marianne, mas a vida me ensinou que o sofrimento e a dor tem um papel muito importante como aprendizado.
Hoje posso dizer que sou muito feliz com o amor da minha vida e apesar de esperar não passar mais por tal situação, acredito que se passasse teria uma outra atitude. Um pouco mais como a Liliane descreveu.
Adorei o post Raquel.
Bjos

Lolla Moon
July 15, 2009

Ah, pode mesmo ser bela, a Tristeza. :) E esse inglês antigo, tão formal e lindamente estruturado, faz tudo o que se escreve lembrar uma poesia, né? Difícil de ler, mas vale a pena o esforço.

Sobre o bolo, acredita que comprei no mercado? Marks & Spencer. O recheio era de maçã verde + crême fraiche. Comi a metade (era pequeno), mas a vontade era ter comido inteiro, haha. Beijo, querida!

Raquel
July 15, 2009

Gisele,
acredito que todas nós tivemos pelo menos um momento “Marianne” na vida! Obrigada.

Raquel
July 15, 2009

Lolla,
também gosto do inglês antigo e talvez por ler quase só esse inglês acho mais fácil do que o inglês atual. Mas diga-se de passagem quase só leio o que gosto, talvez seja esse o motivo.
Bolo com recheio de maçã verde, nunca comi… Preciso me controlar quando vou no teu blog ou saio para comprar comida depois! beijocas

Elaine Dashwood
July 15, 2009

Pobre Marianne. Que golpe duro para alguém com disposição tão romântica. É uma passagem muito bela do livro, essa carta do Willoughby dói até no coração de práticas como eu e minha querida Elinor Dashwood.

Quanto ao bolo de maçã verde, por que vocês fizeram isso?! Agora estou morrendo de experimentar essa guloseima, mas sem a menor chance de conseguir! :(

Nina Vieira
July 15, 2009

Me lembro desta carta, aliás, estou voltando a ler Sense and Sensibility.
Mas a Marianne foi muito imprudente por ter presenteado esse mal-carater (quase um Wickham, perceba)com o cacho de seus cabelos!

Raquel
July 15, 2009

Elaine,
sentimos pela Marianne que temos ou tivemos em nós em algum momento.
Lolla Moon faz fotos lindas, e as de comidinhas me deixam cheia de gula!

Raquel
July 15, 2009

Nina,
acho todas nós deixaríamos que ele cortasse um cacho de nosso cabelo… Não esqueça que ele era um charme!

Paula Aryana de Sena
July 16, 2009

Acho que através de sua personagem Marianne Dashwood, Miss Austen criticava as pessoas que idealizam demais o ser amado… Na tradução, acho, de Therezinha Monteiro Deutsch, há um trecho de Sense and Sensibility que diz: “(…) essas tumultuadas desavenças eram úteis para que se tivesse um melhor conhecimento da humanidade.”
Sim, Willoughby era um adorável canalha! E adoro a cena que ele, depois de saber que Marianne está doente, vai à casa onde ela se encontra e acaba desabafando com Elinor sobre suas desventuras. Ai, ai…

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