Plágio de traduções de Jane Austen
Saturday, April 4th, 2009 | Livros, Traduções
Mais um plágio de uma tradução de Jane Austen. Desta vez o nosso amado Orgulho e preconceito pela notória Martin Claret.
jane austen , a encantadora dama das letras inglesas, parece encantar também em português. além do sequestro sofrido às mãos da landmark, em persuasão, ela foi alvo de outro atentado em orgulho e preconceito, às mãos do nefário claret.
a rapinagem foi feita em cima da tradução de maria francisca ferreira de lima, na edição da europa-américa. sofreu leves alterações, sobretudo nos primeiros parágrafos, e saiu atribuída a “jean melville”.
Em “liz bennet kidnapped” | Não Gosto de Plágio | 19/03/2009
Plágio é crime*. E na minha opinião um crime duplo: roubo de autoria do escritor ou do tradutor e também roubo de informação do leitor. Já falei sobre plágio no post “A palavra é… A palavra deveria ser…“. Aproveito então a oportunidade para uma mini-entrevista, há muito planejada e sempre adiada, com Denise Bottmann, tradutora, historiadora e autora do blogue Não Gosto de Plágio.

Jane Austen em Português Denise, o que é plágio? Há mais de um tipo de plágio?
Denise Bottmann Todo ser humano é dotado de direitos pessoais invioláveis, entre eles o direito à vida, ao próprio corpo e a seu nome. Todo ser humano é dotado da capacidade de criar alguma coisa. Essa obra, fruto de seu trabalho, carrega a identidade pessoal de seu criador, expressa em seu nome. Quando alguém toma uma obra de outrem e se apresenta como seu autor, está ferindo um dos direitos básicos do ser humano, o direito a seu nome. Se o assassinato é o principal crime contra o direito pessoal à vida, entendo o plágio como o principal crime contra o direito pessoal ao nome. Não é um simples roubo, é uma subtração da existência do autor, simbolizada pelo nome, na obra por ele criada. Neste sentido, o plágio é um assassinato. Não creio que exista meio-plágio: creio que a caracterização do tipo é única e absoluta. Ou há, ou não há.
O que pode ocorrer é que uma determinada obra seja apenas parcialmente plagiada, ou que haja a tentativa de disfarçar esse plágio. As formas podem variar, mas o crime é o mesmo: o atentado a um direito essencial do ser humano.
JAP Como é feita a verificação dos livros plagiados?
DB É bastante fácil constatar se há plágio, mas não sei explicar em termos técnicos. Se você ouve uma música e a identifica como A, composta por B; se depois você ouve a mesma música ou trechos muito semelhantes a ela, mas identificados como X, mas de composição atribuída a Y, você pode concluir que se trata de um plágio. A questão não é a semelhança, a questão é a atribuição da autoria.
Hoje em dia existe um ramo de estudos e pesquisas bastante desenvolvido, chamado forensic linguistics, justamente dedicado às técnicas de estabelecer os graus de plagiato. Existem também vários programas de computador para detetar o índice de repetibilidade dos mesmos termos entre dois textos diferentes.
No caso desses livros que venho cotejando, trata-se de plágios muito simples: cópias literais ou semiliterais, que não demandam expertise nenhuma. Basta olhar e ver.
JAP Há mais traduções de Jane Austen plagiadas no Brasil, além de Persuasão e Orgulho e preconceito?
DB Atualmente tenho notícia de plágios das traduções de Jane Austen apenas nos casos da Landmark (Persuasão) e da Martin Claret (Orgulho e preconceito). Tomara que sejam os únicos!
JAP O que está sendo feito e o que é possível fazer para nos livrar dos plágios?
DB A primeira e principal medida para reduzir a quantidade de plágios no Brasil, a meu ver, é uma reformulação da Lei dos Direitos Autorais 9.610/98. Deve-se contemplar a sugestão feita por um grupo de estudos da FGV: obras esgotadas há mais de 3 anos, sem reedição, devem ser liberadas da reserva patrimonial da editora que detém seus direitos de publicação. Com isso elas podem voltar a ser livremente impressas, respeitando-se devidamente o direito moral de seu autor/tradutor. Assim os leitores terão acesso normal a elas e à informação sobre seus verdadeiros autores/tradutores.
Enquanto não há essa reformulação ou uma flexibilização da lei, impedindo que as obras criem mofo no fundo dos baús das editoras, o que resta a nós é denunciar, reclamar, entrar com petições e representações contra as editoras criminosas, e não compactuar de maneira alguma, a pretexto algum, com tais fraudes.
Muito obrigada, Denise!

- * Lei de Direito Autoral, n. 9610 de 1998. Ver capítulo “Das Sanções Civis”.
- Aproveitando que estão no blogue da Denise vejam também sobre os mitos de livros baratinhos nos seguintes posts: “O mito do preço I“, “II“, “III” e “O preço do mito“. Somos enganados de todas as formas!
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6 Comments to Plágio de traduções de Jane Austen
Raquel,
Parabéns pela entrevista. O trabalho da Denise Bottmann é muito importante porque o nosso mercado editorial está cheio de plágios. Aquele velho adágio segundo o qual o barato ás vezes sai caro é muito apropriado para descrever o que essa editora das capas coloridas faz.
Eu, que tenho dificuldade para ler em outros idiomas, mas mesmo assim gosto dos grandes autores estrangeiros, mesmo que traduzidos,frequento sempre o blog da Denise para saber o que não devo comprar.
O problema não está em ler livros traduzidos. O problema está nos picaretas que se aproveitam da boa fé alheia para violar as leis.
April 4, 2009
sobre o estudo da fgv:
http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2008/09/estudo_fgv_minc_final_jun_2008.pdf
14. Inclusão de dispositivo legal permitindo uma cópia integral de qualquer obra, desde
que com o propósito de incorporação da obra ao acervo de arquivo, biblioteca,
museu, entidade sem fins lucrativos e entidade educacional, depois de transcorrido
certo prazo de tempo – tal como 3 ou 5 anos – em que a obra se encontre com edição
comercial esgotada, sem haver necessidade de remunerar o autor e/ou titular da obra;
April 4, 2009
Carlos, obrigada.
O trabalho da Denise é de utilidade pública – na melhor acepção do termo.
April 4, 2009
Denise,
essa inclusão seria corretíssima! Se as editoras não acham viável uma publicação como por exemplo Mansfield Park, que deixassem as bibliotecas públicas copiar! A tradução de Rachel de Queiróz de Mansfield Park tem mais de vinte anos!
April 4, 2009
e bibliotecas públicas virtuais, como o portal do mec!
April 4, 2009
Denise,
melhor ainda!


April 4, 2009